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A ambigüidade sobre o uso da violência

11/08/2008

A ambigüidade sobre o uso da violência

Depois de tudo concluiu o semestre na UM em Bogotá, ainda que com mais sobressalto e com mais incerteza dos aceitáveis para um bom ritmo de trabalho acadêmico.



Uma vez mais saltaram à vista incongruências profundas entre muitos universitários, que servem de alento a comportamentos lesivos para a universidade pública, fatos, ironicamente, em nome da defesa da universidade pública. Quisesse assinalar uma destas incongruências, a que tem que ver com o uso da violência e sua relação com debilidades e carências nos mecanismos de comunicação e debate internos.

Durante este semestre presenciamos como, de repente, as medidas de força de um grupo suprimiram os debates, as críticas e as propostas de professores e estudantes frente a decisões da direção da UM, nesta ocasião o Estatuto Estudiantil.

A discussão entre universitários se bloqueou pelo chamado "bloqueio" dos edifícios, e seus promotores não se pararam em considerações com os predios, o mobiliário, certos escritórios nem laboratórios. De ali escalaram às agressões pessoais contra outros universitários, professores e estudantes. Do emprego de meios simbólicos como o grafiti ofensivo, deslizaram-se para a intimidação contra quem não acatassem o uso da força: correios eletrônicos ameaçantes, 'pintas' e danos em escritórios, insultos e inclusive a agressão física. A assembléia, elevada ao posto de ritual de consagração de decisões já tomadas, erigiu-se no lugar para aplacar a gritos todo matiz, toda diferença.

E uma vez mais se fez evidente o rasgo mais preocupante: a ambigüidade de muitos sobre o uso da violência na universidade.

Esta ambigüidade é a mola oculta de ações e de faltas de decisão em diferentes níveis. Vacilações, condenações a médias, silêncios, eufemismos, ocuparam o lugar do que se esperaria como a postura de universitários: a defesa clara do pluralismo, da diversidade de opiniões e do debate raciocinado, a rejeição ao uso da violência que impede nossa razão de ser. É que sem dizê-lo de maneira explícita, alguns professores e estudantes consideram aceitáveis ou toleráveis formas de ação violenta pois se acometem invocando a suposta defesa da universidade pública.

Ainda que a universidade fica inerme frente à violência, consideram ilegítimo ir aos mecanismos instituídos de controle. De que concepção do público se trata, pois é evidente que não do conceito segundo o qual se defendem os interesses coletivos e à coletividade em sua diversidade? Por que muitos calam frente a essa usurpação do conceito, banalizado para fazer-lhe dano à universidade, a sua imagem pública e ao cumprimento de seus fins misionales? Por que o silêncio frente a sua instrumentação com fins particulares?
Uma resposta socorrida é que os estalidos se devem à falta de comunicação e debate na tomada de decisões.

Provavelmente é verdadeiro que temos carências sérias nos mecanismos de comunicação e que esta é limitada pela via da representação de estudantes e professores, tanto como sua incidência no governo da universidade; também é débil a conexão dos representantes com as unidades básicas da vida universitária. Talvez é hora de revisar os mecanismos atuais e tomar em sério várias propostas de professores que puseram este tema em debate, até agora sem maior eco. Mas em qualquer caso, a revisão destes mecanismos implica modificações no sistema interno de valores, que deve considerar o pluralismo e a liberdade de opinião como a pedra angular da atividade universitária e coração da noção do público. E ali não têm cabida ambigüidades sobre o uso da violência.

* Myriam Jimeno é Professora titular Departamento de Antropologia- Centro de Estudos Sociais.



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